A arborizada Islamabade, onde moro há uma semana, ontem amanheceu ressentida e tristonha feito o Rio de Janeiro em certa segunda-feira de 1950.
Na véspera, o Paquistão fora eliminado da Copa do Mundo de Críquete, nas semifinais, por seu nemesis perpétuo – a Índia. Eis a definição acabada de um apocalipse esportivo, na perspectiva paquistanesa.
Nem tudo é lamentação, no entanto. A peleja serviu para que os respectivos Chefes de Governo relançassem o diálogo indo-paquistanês, estagnado desde 2008, no que a imprensa apelidou cricket diplomacy.
Procurei acompanhar e entender o duelo – que durou quase nove horas – até me perder irreversivelmente no vocabulário de innings, wickets, overs e outras regras bizantinas do críquete. A partir de então, relaxei e passei a apreciar o jogo como quem admira uma sessão fotográfica de Man Ray- um exercício impressionista e inútil de alegria minimalista.
A diplomacia do críquete é a versão subcontinental da ping pong diplomacy sino-americana dos anos 1970. Mas e o próprio críquete, a que corresponde? O que explica seu magnetismo para os vinte por cento de humanidade que moram entre o Hindus e o Ganges, a ponto de ser festejado como o pilar da identidade nacional paquistanesa?
Há no críquete o rigor purista do sumô japonês, a técnica fina do beisebol norte-americano, o arrebatamento popular do futebol brasileiro e a concentração implacável do xadrez russo. Mas há algo mais. Há a paciência. Nenhum outro esporte de massas tem partidas com duração de até cinco dias inteiros.
Antes e acima de tudo, críquete é paciência.
A paciência de quem, acocorado, aguarda a próxima chuva por incontáveis horas no interior do Punjab. A paciência de quem assimila influências invasoras de impérios sucessivos. A paciência de quem espera, há mais de seis décadas, o impossível retorno de Srinagar.
A paciência que, reformulada como resilience, dá esperança a pensadores otimistas de uma época pessimista.
Na ausência da sorte, é a paciência que sustenta um país.

