Thomaz Napoleão

"pensent profondément ceux-là seuls qui n'ont pas le malheur d'être affligés du sens du ridicule" (cioran, "ébauches de vertige")

Archive for April, 2011

Guerras e acasos

Por uma cornucópia de motivos que não caberiam aqui, passei minha semana em contato – pessoal ou intelectual – com correspondentes e fotógrafos de guerra. Falo de Kim Barker e Adriana Carranca, aqui no AfPak, e de Manu Brabo, Tim Hetherington (rip) e Ed Ou na Líbia.

O que explica a atração de tanta gente por profissões tão incompreendidas, inconsequentes, ricas em riscos?

Em certos casos, um inconfessável fascínio pela beleza do catastrófico. Noutros, o sentido de urgência diante da dor alheia – alguns diriam “compaixão”, mas não gosto desse termo. Por vezes, o simples vício de vagar, vagar e vagar por um mundo dolorosamente infinito e infinitamente doloroso. In extremis, a certeza de que pouco do importante realmente importa. O desapego puro.

Meu souvenir da arruinada Vukovar, 2004

Respeito todas as motivações acima e já flertei – mais de uma vez – com quase todas as profissões que gravitam em torno dos campos de batalha. Isso me leva a inverter a pergunta anterior: o que me impediu de segui-las?

Posso ter sido empurrado pela História. Eu decidi estudar Relações Internacionais em 11 de setembro de 2001 e ingressei na diplomacia – sepultando uma carreira natimorta na assistência humanitária – como consequência da grande recessão de 2008. Duas crises a menos e o mundo teria sido outro. Meu mundo teria sido outro.

Assim como todas as demais escolhas que fiz ou abandonei, essas opções estão em mim. Afinal, eu sou eu e minha circunstância. Não?

Não. Talvez não. Talvez seja o contrário.

Talvez a circunstância não exista fora de mim, ou somente em mim faça sentido.

É por acaso que existo, mas não é por acaso que moro em um país em guerra. Não é por acaso que sou o que sou. É por liberdade.

Just a little patience

A arborizada Islamabade, onde moro há uma semana, ontem amanheceu ressentida e tristonha feito o Rio de Janeiro em certa segunda-feira de 1950.

Na véspera, o Paquistão fora eliminado da Copa do Mundo de Críquete, nas semifinais, por seu nemesis perpétuo – a Índia. Eis a definição acabada de um apocalipse esportivo, na perspectiva paquistanesa.

Nem tudo é lamentação, no entanto. A peleja serviu para que os respectivos Chefes de Governo relançassem o diálogo indo-paquistanês, estagnado desde 2008, no que a imprensa apelidou cricket diplomacy.

Afridi versus Tendulkar

Procurei acompanhar e entender o duelo – que durou quase nove horas – até me perder irreversivelmente no vocabulário de inningswickets, overs e outras regras bizantinas do críquete. A partir de então, relaxei e passei a apreciar o jogo como quem admira uma sessão fotográfica de Man Ray- um exercício impressionista e inútil de alegria minimalista.

A diplomacia do críquete é a versão subcontinental da ping pong diplomacy sino-americana dos anos 1970. Mas e o próprio críquete, a que corresponde? O que explica seu magnetismo para os vinte por cento de humanidade que moram entre o Hindus e o Ganges, a ponto de ser festejado como o pilar da identidade nacional paquistanesa?

Há no críquete o rigor purista do sumô japonês, a técnica fina do beisebol norte-americano, o arrebatamento popular do futebol brasileiro e a concentração implacável do xadrez russo. Mas há algo mais. Há a paciência. Nenhum outro esporte de massas tem partidas com duração de até cinco dias inteiros.

Antes e acima de tudo, críquete é paciência.

A paciência de quem, acocorado, aguarda a próxima chuva por incontáveis horas no interior do Punjab. A paciência de quem assimila influências invasoras de impérios sucessivos. A paciência de quem espera, há mais de seis décadas, o impossível retorno de Srinagar.

A paciência que, reformulada como resilience, dá esperança a pensadores otimistas de uma época pessimista.

Na ausência da sorte, é a paciência que sustenta um país.

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