Thomaz Napoleão

"pensent profondément ceux-là seuls qui n'ont pas le malheur d'être affligés du sens du ridicule" (cioran, "ébauches de vertige")

Guerras e acasos

Por uma cornucópia de motivos que não caberiam aqui, passei minha semana em contato – pessoal ou intelectual – com correspondentes e fotógrafos de guerra. Falo de Kim Barker e Adriana Carranca, aqui no AfPak, e de Manu Brabo, Tim Hetherington (rip) e Ed Ou na Líbia.

O que explica a atração de tanta gente por profissões tão incompreendidas, inconsequentes, ricas em riscos?

Em certos casos, um inconfessável fascínio pela beleza do catastrófico. Noutros, o sentido de urgência diante da dor alheia – alguns diriam “compaixão”, mas não gosto desse termo. Por vezes, o simples vício de vagar, vagar e vagar por um mundo dolorosamente infinito e infinitamente doloroso. In extremis, a certeza de que pouco do importante realmente importa. O desapego puro.

Meu souvenir da arruinada Vukovar, 2004

Respeito todas as motivações acima e já flertei – mais de uma vez – com quase todas as profissões que gravitam em torno dos campos de batalha. Isso me leva a inverter a pergunta anterior: o que me impediu de segui-las?

Posso ter sido empurrado pela História. Eu decidi estudar Relações Internacionais em 11 de setembro de 2001 e ingressei na diplomacia – sepultando uma carreira natimorta na assistência humanitária – como consequência da grande recessão de 2008. Duas crises a menos e o mundo teria sido outro. Meu mundo teria sido outro.

Assim como todas as demais escolhas que fiz ou abandonei, essas opções estão em mim. Afinal, eu sou eu e minha circunstância. Não?

Não. Talvez não. Talvez seja o contrário.

Talvez a circunstância não exista fora de mim, ou somente em mim faça sentido.

É por acaso que existo, mas não é por acaso que moro em um país em guerra. Não é por acaso que sou o que sou. É por liberdade.

Just a little patience

A arborizada Islamabade, onde moro há uma semana, ontem amanheceu ressentida e tristonha feito o Rio de Janeiro em certa segunda-feira de 1950.

Na véspera, o Paquistão fora eliminado da Copa do Mundo de Críquete, nas semifinais, por seu nemesis perpétuo – a Índia. Eis a definição acabada de um apocalipse esportivo, na perspectiva paquistanesa.

Nem tudo é lamentação, no entanto. A peleja serviu para que os respectivos Chefes de Governo relançassem o diálogo indo-paquistanês, estagnado desde 2008, no que a imprensa apelidou cricket diplomacy.

Afridi versus Tendulkar

Procurei acompanhar e entender o duelo – que durou quase nove horas – até me perder irreversivelmente no vocabulário de inningswickets, overs e outras regras bizantinas do críquete. A partir de então, relaxei e passei a apreciar o jogo como quem admira uma sessão fotográfica de Man Ray- um exercício impressionista e inútil de alegria minimalista.

A diplomacia do críquete é a versão subcontinental da ping pong diplomacy sino-americana dos anos 1970. Mas e o próprio críquete, a que corresponde? O que explica seu magnetismo para os vinte por cento de humanidade que moram entre o Hindus e o Ganges, a ponto de ser festejado como o pilar da identidade nacional paquistanesa?

Há no críquete o rigor purista do sumô japonês, a técnica fina do beisebol norte-americano, o arrebatamento popular do futebol brasileiro e a concentração implacável do xadrez russo. Mas há algo mais. Há a paciência. Nenhum outro esporte de massas tem partidas com duração de até cinco dias inteiros.

Antes e acima de tudo, críquete é paciência.

A paciência de quem, acocorado, aguarda a próxima chuva por incontáveis horas no interior do Punjab. A paciência de quem assimila influências invasoras de impérios sucessivos. A paciência de quem espera, há mais de seis décadas, o impossível retorno de Srinagar.

A paciência que, reformulada como resilience, dá esperança a pensadores otimistas de uma época pessimista.

Na ausência da sorte, é a paciência que sustenta um país.

A theory of everything is good for nothing

Having recently read Dominique Moïsi’s much-adooed book The geopolitics of emotion, I confess to be disappointed.

Granted, the book has an interesting premise: feelings drive globalization. Linking Asia with hope, Europe with fear and the Middle East with humiliation, the French author claims that sentimental factors – not rational considerations – can explain the dynamics of our world. Moïsi includes in his work a compelling plea for tolerance among cultures. But this cannot make up for the analytical rigor his book lacks.

China seems to personify hope these days

Tentative “theories of everything” displease me. From game theory to Huntington’s clash of civilizations, they have always upset me as wishful thinking at best and crude manipulation at worst. Can a single explanation really elucidate all human phenomena?

It is ultimately a matter of belief.

Alas, I am not a man of strong beliefs.

I never quite felt what Herr Freud called the oceanic feeling: a mystical sensation of appartenance. An awareness of one’s smallness. A sense of wonder. To put it simply: faith.

Instead of trusting a solo reason, I’d rather be a solo thinker. The world’s far too complex and life’s way too short. To seek a universal logic behind everything – God, History or Reason – is to miss the point.

Just let life be.

Les jeux sont faits

Passou-se um ano desde a morte súbita do Livro de Rodínia, o blog que mantive na França e na Rússia. Minha vida mudou profundamente nesse ínterim, embora siga tão peripatética e patética quanto os dançarinos circenses da Lavoura Arcaica.

Não fui trabalhar com projetos humanitários em Uganda. Não me casei. Não aprendi mandarim. Não me tornei prosador, espião ou professor. Nada disso.

Algo diferente aconteceu. Redescobri meu país e sua gente. Reencantei-me. Acima de tudo, assumi uma identidade nova, um novo disfarce na Terra: sou agora diplomata. Trabalho para o Brasil, nada menos. Não poderia haver motivo melhor para voltar a escrever.

Assim, de abiogênese, nasce um sítio novo, que hoje inauguro. Ele não tem nome; é inteiramente anônimo. Mas seu autor não o é.

Este é um blog totalitário. Ele tratará de tudo – ou quase. Com as expressas exceções da política externa brasileira e da minha vida sentimental, todos os assuntos poderão vir à baila.

Como o finado Livro de Rodínia, esta página será multilíngue, thus appealing for a wider audience. Por outro lado, apelarei bem menos para o non sequituur absurdista e para os textos cifrados de que antigamente gostava.

Existe um motivo para isso. Conforme envelheço, passo a valorizar os diálogos mais do que os monólogos. Quero me fazer entender. Quero entender. E “entender” para mim é verbo intransitivo.

Publique-se. Entenda-se!

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